Passam cerca de 200 dias por ano fora de casa, são viciados em adrenalina e provocam calafrios em quem viaja ao lado. O Eurosport dá-lhe as boas-vindas ao mundo dos diretores-desportivos.
Há momentos que não se esquecem e para um jovem jornalista a possibilidade de seguir uma etapa no carro de uma equipe do World Tour é um deles.
O destino é o carro da Garmin. Trocam-se uns apertos de mão e umas saudações. A etapa arranca e eu não quero atrapalhar, afinal de contas estamos em plena competição e esta é a equipe de Heinrich Haussler, David Zabriskie, Christian Vande Velde e Johan Vansummeren, entre outras figuras de destaque do pelotão. Embora nem todos tenham vindo ao Algarve as memórias pesam na hora de discutir ciclismo com quem vive no meio.
Quebrado o gelo apercebo-me que estou ao lado de Bingl Fernandez, um basco que durante 14 anos foi ciclista profissional com passagens pela Euskaltel Euskadi e pela Cofidis. No terceiro ano ao serviço da Garmin, Bingl aparenta a descontração natural de quem viveu de e para a bicicleta toda uma vida.
Na ausência dos rádios – que não são permitidos pela UCI nesta Volta ao Algarve – as comunicações com os ciclistas resumem-se a contatos esporádicos com quem vem em busca de um “bidon” de água. No entanto, mesmo essa tarefa rotineira tem os seus truques. O movimento é automático: o ciclista aproxima-se, Bingl recolhe o retrovisor para não o derrubar e imediatamente recebe um “bidon” do mecânico que segue atrás. Na maioria das vezes tudo corre bem, a operação repete-se vezes sem conta, mas para nos relembrar que nem tudo é o que parece, numa das entregas algo corre mal e o ciclista quase cai. No carro ninguém fala por momentos, todos respiram fundo.
BINGL,BINGL, BINGL
A etapa avança e reparo que numa fase mais dura do percurso há um par de ciclistas que ficam para trás. O diretor da Garmin passa por eles, pisca o olho e por uns metros leva-os na sua roda de maneira a poupá-los durante alguns segundos do vento implacável.
O cenário vai-se repetindo mesmo nas descidas, onde chego a pensar que é mais perigoso descer de carro do que na bicicleta tal a “loucura” da condução. Quem está em dificuldades agradece, aliás, a solidariedade do ato demonstra os valores do ciclismo. Talvez por este tipo de gestos e certamente por ter um dia andado na estrada a sofrer, é raro o corredor que passa pelo carro e não saúda o basco: “Hola Bingl! Hey Bingl” ou simplesmente “Bingl”. Quem passa pelo carro da Garmin deixa sempre uma palavra simpática e isso diz muito de quem segue ao meu lado.
Entretanto o dia avança e também a fome. A sandes de salmão prevista para o almoço não agrada a Bingl, com quem decido partilhar um pedaço da nossa gastronomia. Ele pergunta-me o que é – “uma empanadilha?” – e explico-lhe que os rissóis de carne são apenas uma amostra do que temos de melhor e o basco sorri, afinal de conta também ele se rendeu a Portugal e à gastronomia local, em particular o pão.
Do Algarve só palavras elogiosas. Boas estradas, clima excelente e uma corrida pela qual hoje em dia já é preciso lutar só para poder estar presente.
A Garmin não ganha a etapa mas vê Heinrich Haussler meter-se na luta pela vitória e perder por pouco. O australiano tinha avisado que ia tentar, de forma a ganhar confiança para o resto da temporada.
JUAN, O MEXICANO TRANQUILO
Juan é o parceiro silencioso, um homem que fala pouco mas que tem um papel crucial na equipe. Afinal de contas trata-se do mecânico que segue no primeiro carro de apoio, o que segue a corrida mais de perto.
A postura mais retraída explica-se facilmente, já que o mecânico ainda se procura adaptar aos novos colegas da Garmin. Tal como muitos outros profissionais, Juan foi vítima da nova tendência no mundo do ciclismo de elite, as fusões, tendo perdido um lugar na RadioShack aquando da junção da equipe americana com a Leopard Trek.
Felizmente para o mexicano que a Garmin precisava de um homem experiente (Juan está na Europa desde o início da década de 90). Tranquilo e reservado, Juan anima-se quando passa pelo carro dos antigos companheiros e após uma troca de palavras de saudade sempre vai dizendo na brincadeira que na nova equipe a merenda é melhor. A adaptação à nova “família” já começou.
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